A Convenção dos
Direitos das Pessoas com Deficiência (2006) elegeu a atual nomenclatura
que norteia o universo da Inclusão quando o tema é deficiência. Sempre que
apresento em alguma palestra quais os termos apropriados para nos referirmos às
pessoas com deficiência, ouço, entre outras coisas, a seguinte afirmação: "mas
isso muda o tempo todo...". Ou ainda: “nem adianta decorar, pois logo já
vai mudar”...
Entendo e até
concordo em parte com estas afirmações. Realmente, os termos e as nomenclaturas
já mudaram muito nas últimas décadas. Exemplo disso, é o termo “pessoa com
Síndrome de Down”, que já foi “mongoloide”, “retardado”, “excepcional” e “especial”.
Porém, achar que por conta dessas mudanças não devemos buscar toda a
atualização possível, acho um equívoco. Sim, é preciso estudar e conhecer o
termo em uso, mesmo que ele mude a cada dois anos. É o mínimo que se espera de
um bom profissional, seja ele da educação, da saúde ou de qualquer outra área
que trabalhe com o universo da deficiência. Mas, será que estas mudanças na
nomenclatura são pertinentes? Será que faz alguma diferença a maneira pela qual
vamos chamar o indivíduo que possui algum tipo de deficiência? Ou ainda, o que
vai acontecer se continuamos usando termos inadequados para nos referirmos às
PCDs?
Acredito que esta
resposta esteja profundamente vinculada ao nosso contexto social, histórico e
comportamental. Durante 20 anos, o Brasil viveu mergulhado num regime
ditatorial que, tal como um polvo gigante, sufocou a liberdade de opinião e de
expressão. Ainda que houvesse uma ferrenha resistência por parte de setores
culturais e políticos da sociedade aos efeitos da ditadura, é nítido que os
anos de chumbo significaram um período conturbado onde muitos gritos foram
contidos. Logo após, com a abertura política nos anos 80, começamos a provar de
uma liberdade ímpar que em cinco anos levou-nos até os anos 90. Aí sim, tudo
era permitido. Não raro, vemos postagens nas redes sociais relembrando
programas de TV dos anos 90, onde tudo era possível, desde “sushi erótico” até
mulheres e homens excitados numa competição numa banheira em frente às câmeras.
Piadas satirizando negros, gays e pessoas com deficiência e enaltecendo o padrão
normativo da sociedade fizeram parte da conturbada enxurrada de informações a
que ficamos expostos. E pior: expostos, e sem espaço para questionarmos aonde
aquilo tudo iria parar. Foi então que nos últimos anos surgiu um termo tão
polêmico quanto necessário e que divide opiniões: o “politicamente correto”. Chamar
alguém de preto, de viado ou valorizar atitudes machistas que inferiorizem um
gênero em prol de outro passou a ser inaceitável nos últimos anos, ainda que
saibamos que os efeitos desse “politicamente correto” só poderá se fazer sentir
com mais intensidade num futuro talvez nem tão próximo.
Quando minha avó
nasceu, há cem anos atrás, a abolição da escravatura tinha sido proclamada
fazia apenas três décadas, o que é um tempo muito curto dentro de uma perspectiva
histórica. Meus avós conheceram um mundo onde as mazelas da escravidão ainda
eram muito presentes e onde negros não eram sinônimos de gente, mas sim, de mão
de obra desprovida de alma e de sentimentos. Todavia, os conceitos e
preconceitos que embasaram o mundo onde meus avós viviam não mudaram muito no
último século, de forma que as diferenças de oportunidades e de possibilidades
para um negro e para um branco em aspectos como educação e trabalho,
infelizmente, ainda são gritantes. Chamar um negro de “macaco” num estádio de
futebol ou numa rede social é crime. Dizer que uma mulher foi estuprada porque
provocou os estupradores com suas roupas curtas é no mínimo inaceitável. Desta forma,
uma avalanche de novos conceitos cada vez mais faz-se presente nos nossos dias,
promovendo reflexões e tentando desfazer as amarras às quais mostrávamos
presos. Palavras não são apenas palavras, mas sim, pedaços de significados que
usamos para expressar nossas ideias, sentimentos e atitudes. Sendo assim,
acredito que o politicamente correto – ainda que muitos o critiquem alegando
ser ele uma espécie de censura – encontra papel justificável na nossa
sociedade. Entender que as mudanças de termos e de nomenclaturas vão muito além
do simples uso de expressões da nossa língua, é necessário e até imprescindível,
uma vez que ajudam a construir novos conceitos e a destruir preconceitos
solidificados por décadas, séculos e gerações.
por Cris
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